domingo, 16 de agosto de 2026

Verita, não! (Borboleta)

 

Não! Mesmo sabedores de que a situação não inspirava maiores cuidados, por não ser o procedimento objeto de intervenção vital, a chaga da preocupação rompeu em todos quando sua presença deixou a sala de espera. Afinal, não foi sem surpresa que a Família recebeu a notícia, sobretudo, por não anteverem qualquer estado prévio de moléstia na paciente. E, como não lhes competia a decisão, também não foi sem ressentimento que assentiram ao processo. Entretanto, no momento decisivo, todos se fizeram solícitos: não houve ausências. Assim, o olhar do marido, dos filhos e de Verita seguiram-na até a transposição da porta móvel  sobre a qual se lia: “Bloco Cirúrgico”.

 

Destarte, quando os passos da matrona, ainda firmes e rígidos, romperam a fronteira que separava ambos os recintos, todos se fizeram cientes de que não retornariam com vida; e as pupilas, já a navegar em lágrimas, contraíram-se a antecipar a dor da não-existência.

 

Para bem da verdade, há muito lhes tomava a angústia. De forma que, não houve, naqueles breves últimos dias, em que a areia do tempo parecia exceder os limites da ampulheta, qualquer momento de alegria verdadeira. Nenhuma mísera ocasião em que a dor não se dispusesse, camuflada, a conduzir os pensamentos para a morada das sombras, para a morada do medo - medo de que a morte embarcasse de surdina, lançasse âncora ao mar e estancasse a rota daquela jornada. Somente Verita parecia não compactuar, em virtude de sua condição, com a tristeza do lar; de maneira a não se fazer manifesta em sua pessoa qualquer contradição entre demonstrações de afeto e sentimentos. Realmente, a inaptidão racional impedia-a de qualquer dissimulação: não havia agonias ocultas em sua contagiante alegria. Nem mesmo é possível - conforme desejaram os seus - atribuir sua tristeza, no momento em que os passos da mãe iam-se, a uma possível compreensão dos fatos; hipótese fervorosamente contradita pelos menos próximos, os quais atribuíam ter sido sua amargura mera reação instintiva, assimilada em virtude do padecimento da Família.

 

Assim, quando, por via dos fatos, na sala de espera, a sirene - por uma única nota - proferiu, em contratempo, ásperos gritos, acompanhada, em mesmo compasso, por blocos de luzes vermelhas, enfermeiras e médicos puseram-se a correr, entremeio às macas que resvalavam pelas folhas móveis da porta. Nesse instante, a Família - que também alternava seu silêncio com os latidos de Verita - confirmava seu veredicto.

 

A tristeza tomara corpo e se fortalecera às custas da dor e das lágrimas de cada um. Eram os olhares do marido enternecidos com a partida da amante e preocupado com sua Situação Futura - visto não ter ainda conseguido contornar sua condição ociosa e alcançar, tal como almejava, sua independência lotérica. Eram os gestos do filho mais velho que, em estupor violento, arrancava pelas raízes as cadeiras e lançava-as janela abaixo, a denunciar o desespero da prole ferida, de quem a vida subtraiu, juntamente com o amor materno, as perspectivas de um Carro Novo para o fim do ano. Eram os urros lançados pela filha moça, a ecoar a virgindade dos sentimentos, tal qual a criança a quem se nega o peito, desnorteada por sua dependência e aniquilada pelo desejo do Baile de Quinze Anos que se esvaecia. Nessa tristeza, a Família sofria tal Padecimento que, talvez, nunca houvesse cessado, não fosse um, dentre eles, ter invocado em sussurros - por euforia dos lábios que não conseguem conter as melhores idéias aos limites do pensamento - a palavra mágica, a única capaz de aplacar toda dor: o Seguro... Ah, Seguro! Ao ressoar do termo, os olhos da Família tornaram-se vítreos, tal como serpentes encantadas, a contemplar o som achocalhado que lhes assegurava um bom futuro. De maneira tal que, pouco a pouco, as lágrimas recolheram-se, o mar fez-se sertão, a areia fez-se vidro e o silêncio quase se assentara; não fosse a inconveniência de Verita, que não parava de latir.

 

Um tanto quanto aliviados, macho e prole, silenciosamente, aguardavam o agouro médico. Agora já consolados, em sua satisfação de náufragos ao avistarem terra firme, meditavam sobre a consecução dos fatos e planejavam cada qual o destino de seu quinhão; contentes pelos bons ventos anunciados em meio à tempestade, não se resignavam mais com a Fortuna - afinal, era a vontade divina e, com certeza, estaria Ela melhor ao lado de Deus.

 

Em tal medida arraigou-se no bojo da Família a aceitação da morte, que, quando as folhas da porta eclodiram na estatura do homenzinho - envolto por seu jaleco recoberto de sangue - a anunciar que a cirurgia havia sido um sucesso, as faces estupefatas e sorridentes entreolharam-se, não sem manifestarem certo resquício de decepção e ressentimento.

 

No momento em que a convalescente deixou o centro cirúrgico, todos aguardavam-na no quarto; e, por ali, velaram, horas a fio, seu sono anestésico - ansiosos, os pensamentos distantes, a comparar, a meditar meticulosamente sobre qual teria sido o melhor desfecho para a situação... Assim sendo, mediante a absorção dos convivas, enlaçados em suas reflexões, foi Verita quem primeiro percebeu o despertar da enferma, ao cabo do que, instintivamente, em salto chão a cima, lançara-se a uma explosão de grunhidos e lambidas de puro ensejo e plena satisfação. Contudo, suas limitações racionais nunca lhe permitiram compreender a razão pela qual a Família -evidentemente, preocupada com o contato nocivo entre a enferma e a impureza provinda daquele ser que rastejara pelo imundo hospital - censurara-lhe e admoestara-lhe em grave e uníssono grito: Verita, Não!

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